Nos últimos dias assistimos duas manifestações de pessoas públicas que trouxeram à tona velhos elementos de preconceito contra o Presidente Lula e revelaram a falta de inteligência e sensibilidade no exercício da crítica política.
O sociólogo e ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso resolveu rebuscar em suas gavetas seu vocabulário “sociologuês” e dar uma aula de democracia. O alvo, claro, foi o Presidente Lula e as recentes inclinações populistas e, segundo o sociólogo, ditatoriais do governo petista. Enquanto crítica política, nada de novo. Mas a linguagem do sempre polido e educado cientista social extrapolou para os exageros de uma critica pessoal, revelando o que já se indicava desde o momento em que passou a faixa presidencial. FHC está amargurado porque agora tem um comparativo que o coloca em situação de inferioridade na cronologia política brasileira e nas biografias presidenciais. A partir do ano que vem, ele deixará de ser a referência mais próxima de comparação de governos. Certamente o foco comparativo da governabilidade será entre Lula e seu/sua provável sucessor(a). As críticas ao que ele chamou de ditadura de sindicatos ou de um populismo acachapante revelam talvez que o ex-Presidente tenha se esquecido de que teve nos sindicatos e na massa brasileira dois desafios com os quais não soube lidar com tanta desenvoltura.
Não sou mais lulista como cheguei a ser no primeiro mandato do Presidente. Entendo que alguns rumos do governo apontam para resultados que gostaria fossem mais qualitativos. Mas jamais concordarei com o fato de se tentar desqualificar o que aconteceu e acontece hoje no Brasil. O governo Lula tem sido, sem dúvida um espaço e um momento político de expansão da sociedade civil organizada. Posso discordar de alguns estilos pessoais do Presidente, mas não admito que se queira compará-lo a ditadores. O Brasil avançou em muitos indicadores sociais e econômicos e tem hoje – apesar de muitas contradições ainda – uma colocação no cenário internacional que confere um status de respeitabilidade sempre desejada por todos nós. Alguns poderão dizer talvez que tudo isso começou com o Plano Real. Isso é verdade, mas a paternidade do plano de estabilização não pode ser atribuída somente ao iluminismo cardosista. Para a implantação do Plano, FHC contou com uma conjuntura política que legitimou a proposta – inclusive seu próprio superior hierárquico, o Presidente Itamar Franco ao qual ele nunca se refere como avalista do plano, numa deselegância nada adequada a um gentleman.
No seu governo se viu um monte de eventos de questionável qualidade gerencial no tocante ao avanço de indicadores sociais.
O projeto de privatização de patrimônio público e a negociação em torno do projeto de re-eleição podem por si só reunir elementos de conhecidas ranhuras do seu governo. Não quero me estender aqui sobre esses assuntos porque o meu foco é realmente demonstrar que FHC foi mais uma vez injusto e indelicado com aquele diante de quem se curvou para apanhar os óculos na histórica posse de 2003. As palavras ditas e escritas por ele destilam um preconceito que é típico dos conservadores brasileiros que ainda não superaram seu inconsciente escravocrata.
O outro depoimento triste e lamentável foi o de Caetano Veloso. Empolgado pela oportunidade de falar a uma audiência de caráter nacional – coisa rara ultimamente em sua vida – Caetano resolveu proclamar aos quatro ventos seu apoio a Marina Silva e desqualificou o Presidente Lula afirmando que ele é um analfabeto. Penso que Marina Silva preferiria receber apoio político de pessoas que sejam coerentes com um projeto de sociedade em que o preconceito não tenha lugar. Lamentável e infeliz afirmação de um dos ícones da MPB. Uma postura que vai na contra mão de tudo que as letras de suas músicas proclamam através de uma bela poesia. O Brasil precisa superar de vez a idéia de que só os iluministas compreendem a alma do nosso povo e se credencial a liderá-lo. Me lembro de que quando Lula era candidato, a campanha de seus maiores opositores se baseava exatamente no fato de o Presidente não ter diploma. Todos nós já sabemos sobajamente que os diplomas não geram necessáriamente a sabedoria necessária para liderança. Eles ajudam, é verdade, mas sem a intuição necessária que vem da experiência de vida, da capacidade de lidar com os sentimentos humanos, de nada valem os selos acadêmicos. Caetano prestou-se a um papel vergonhoso que queremos varrer da história de nosso País. Confesso que me decepcionei com sua fala. Esperaria mais sensibilidade de quem lida com a poesia!
De tudo isso ficam duas lições: a amargura e o preconceito embotam as inteligências e não ajudam a construir nenhum debate lúcido em torno de projetos de sociedade. A FHC talvez caiba se dizer que a coisa mais importante para quem já esteve em cima é ser sábio quando se está em baixo. A Caetano talvez caiba lembrar que a poesia é a maior prova de que o maior analfabetismo é aquele que é gerado pela compreensão de que só os letrados é que podem ser escolhidos para liderar um povo e seus sonhos.



Xico,
Muito oportuna a tua reflexão.
Fernando Henrique a gente já sabe o que pensa, desde que nos recomendou esquecer os seus escritos no tempo da USP… mas o Caetano Veloso, parece que deixou de caminhar contra o vento e agora caminha contra o bom senso!
Bjs.