As recentes declarações e ações do Presidente Inácio Lula da Silva levantam junto à opinião brasileira alguns questionamentos. O que estaria motivando uma postura tão abertamente favorável ao que ele mesmo chamou de “biografia política” do Presidente do Senado José Sarney?
Evidente que a razão mais clara exposta pelos analistas políticos é a de que essa defesa está relacionada à tese da governabilidade que estaria em risco se a figura do Presidente do Senado viesse a sofrer uma defenestração do poder. Ele seria, sem sombra de dúvidas, o grande avalista da maioria do governo no senado Federal.
Sabe-se de antemão que a governabilidade é uma exigência que pode justificar alianças não muito desejáveis. No caso do PT, o PMDB representa esse colchão onde o governo busca acomodar uma maioria que garante aprovação de projetos de interesse. Até ai tudo está dentro da normalidade do jogo político.
O que chama a atenção, no entanto, na postura do Presidente Lula é uma defesa pública embasada em premissas pouco lógicas ou politicamente corretas relacionadas ao senador José Sarney. A argumentação de que Sarney não poderia ser tratado como uma pessoa comum diante das acusações graves contra sua postura pública foi, no mínimo, estranha, partindo de um governo que tem como bandeira política a igualdade entre todas as pessoas no exercício da cidadania. Um governo que, ao contrário, vem tratando de ampliar o exercício da cidadania por parte dos segmentos despossuídos da sociedade brasileira.
Mas não só de afirmações contraditórias está sendo acusado o Presidente. A ação política concreta dentro do Senado foi a de construir uma blindagem em torno de José Sarney, estacando assim todo e qualquer avanço das investigações tão desejadas pela sociedade brasileira.
O sumário arquivamento das denúncias no âmbito do Senado foram fruto de uma articulada campanha encabeçada pelo governo, frustrando assim qualquer possibilidade de apuração rigorosa dos fatos que, certamente poderiam levar o senador José Sarney a renunciar a presidência da Casa.
O Presidente Lula, inclusive, submeteu seu próprio partido a uma grave divergência dentro de sua própria bancada. Tome-se o exemplo do senador Aloizio Mercadante que, mesmo na condição de líder, foi obrigado a submeter-se à orientação do Palácio do Planalto e cair no ridículo de anunciar afastamento irrevogável e revogar o irrevogável 48 horas depois.
As consequências da postura do governo se farão sentir nas próximas semanas. Perda de parlamentares e descontantamento junto aos setores mais à esquerda do partido são apenas o começo de um desgaste que pode crescer ainda mais descompensando assim qualquer vantagem que o governo tenha com a manutenção da governabilidade. Há claros indícios de que a crise do Senado continuará e a paralisação daquela casa só pode atrapalhar a agenda do próprio governo.
Então as perguntas que se põem hoje no cenário político são: o Presidente avaliou o suficiente a sua estratégia em relação a Sarney? A espúria aliança entre o Presidente e figuras como Sarney, Collor e Renan Calheiros será benéfica para a manutenção da popularidade de Lula? Os estragos resultantes dessa estratégia serão benéficos para a sucessão dele, em termos da candidatura de Dilma?
A ex-ministra Marina Silva aparece como uma opção alternativa e nas duas últimas semanas tem alcançado forte apoio junto a segmentos que já expressam descontentamento com o governo. Nesse caminhar, provavelmente a postura do Presidente Lula pode alavancar ainda mais a imagem de sua ex-ministra do Meio Ambiente que foi forçada a renunciar em razão das contradições de um governo que começa na esquerda e que vai paradoxalmente fazendo um caminho para o centro e agora mais para a direita a partir do perfil de seus avalistas no Congresso.


