Ao discursar hoje dizendo que o problema de legitimidade moral é do Senado mas não da sua pessoa, o SenadorJosé Sarney criou um problema retórico para ele mesmo.
Primeiro ele tenta dar à instituição Senado uma personalidade distinta de seus membros, o que soa quase esquizofrênico. Segundo, ele atribui ao Senado a capacidade de ser moral ou amoral, como se as instituições tivesse força volitiva por si mesmas sem a interferência das pessoas. As instituições nunca existiram de per si, mas a partir dos seus quadros se constroem legitimas ou não.
É engraçado ver o Sarney de hoje, acuado, balbuciante, e aquele de 1985. Naqueles idos anos da chamada Nova República, ele buscava exatamente o contrário: personalizar a instituição da Presidência como se fossem simbióticas a sua personalidade e a República. Um exemplo disso foram os famosos “fiscais do Presidente”.
Mas porque essa inversão de retórica? Claro, o Presidente Sarney estava na crista da onda de um populismo que lhe caiu nas mãos de presente com a morte de Tancredo. Ali interessava a ele amalgamar sua pessoa e a instituição que ele representava. Dava popularidade e assim ele se legitimava num difícil momento da vida nacional.
Hoje, ele faz um divórcio entre a instituição que ele representa – o Senado – e ele próprio. E a razão é óbvia: ele está com a cabeça a prêmio.Anatemizar o Senado é a esperança de salvar a própria pele.
Será que ele subestima tanto a memória das pessoas inteligentes?Com crteza sim, haja visto que se considera imortal!
Ou pensa que neste País ninguém sabe analisar discursos? Ou comparar afirmações para perceber se há ou não coerência discursiva?
As regras da lógica com certeza não mudaram, mas sim o Sarney de ontem e o de hoje se agarram única e exclusivamente na conveniência: a de ser o pai dos pobres – versão Plano Cruzado – ou o padrasto dos pobres – versão senador nepotista!.




